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Sobre Insurreições e Revoltas

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13 de março de 2014 por Eder Silva

 insurreição

Meditando um pouco sobre os acontecimentos de junho de 2013 e sobre possíveis projeções de futuras manifestações populares, lembrei-me de um capítulo que muito bem nos pode fornecer subsídios para compreendermos as diferentes formas de manifestações. Me contentarei em citar trechos da leitura do livro “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, e acredito que estas sejam suficientes, dispensando, via de fato, minhas sugestões ou argumentos que raramente aparecerão entre colchetes no texto, mas que podem ser dispensadas por você, leitor. Ao meu ver, Victor Hugo sugere um perfil de análise sociológica para eventos ocorridos num período denominado “Época das revoluções”. Mas aqui o autor procura delinear e exemplificar nuances entre os termos revolta e insurreição. Boa leitura!

De que se compõe um motim? De nada e de tudo. De uma eletricidade que lentamente se propaga, de uma chama que subitamente cintila, de uma força que vagueia, de um sopro que passa. Esse sopro encontra cabeças que falam, cérebros que sonham, almas que sofrem, paixões que ardem, misérias que gritam, e leva tudo consigo.

Aonde?

Ao acaso. À revelia do Estado, à revelia das leis, à revelia do bem-estar e da insolência dos outros.

As convicções irritadas, os entusiasmos exasperados, as indignações emocionadas, os instintos de guerra comprimidos, as jovens coragens exaltadas, as cegueiras generosas; a curiosidade, o gosto pelas mudanças, a sede pelo inesperado, (…) os ódios vagos, os rancores, os desapontamentos, todas as vaidades que acreditam ser vítimas  de uma bancarrota do destino; a falta de meios, os sonhos vazios, as ambições rodeadas de dificuldades, os que esperam de um desabamento uma saída; finalmente, no nível mais baixo, a turba, essa lama que se incendeia, tais são os elementos do motim.

O que há de maior e o que há de mais ínfimo; seres que vagam excluídos de tudo, à espera de uma oportunidade, boêmios, gente sem ocupação, vagabundos das ruas, os que à noite dormem em um deserto de casas sem outro teto que as frias nuvens do céu, os que, a cada dia, pedem seu pão ao acaso e não ao trabalho, os desconhecidos da miséria e do nada, os braços nus, os pés descalços, estes pertence à revolta.

Quem quer que abrigue na alma uma revolta secreta contra um fato qualquer do Estado, da vida ou da sorte, se encerra na revolta, e, assim que ela aparece, começa a agitar-se e a sentir-se impelido pelo turbilhão.

O motim é uma espécie de tufão da atmosfera social que se forma repentinamente em certas condições de temperatura e que, em seu rodopio, sobe, corre, estoura, arranca, arrasa, esmaga, derruba, puxa as raízes, arrastando consigo as grandes naturezas bem como as mesquinhas, o homem forte e o espírito fraco, o tronco de árvore e o fragmento de palha.

Infelizes tanto dos que arrebata quanto dos que atropela! Um é jogado contra o outro.

Comunica aos que a ele aderem não se sabe que poder extraordinário. Preenche os desavisados com a força dos acontecimentos; transforma tudo em projéteis. De um seixo faz uma bala, de um carregador faz um general.

Se dermos crédito a certos oráculos da política hipócrita, do ponto de vista do poder, um pouco de revolta é desejável. Esquema: a revolta reforça os governos que não derruba; põe à prova o exército; concentra a burguesia; distende os músculos da polícia; constata a força da ossatura social. E uma ginástica; é quase uma higiene. O poder se sente melhor depois de um motim, como o homem depois de uma massagem.

(…) Toda uma escola política, chamada com justiça de centro, saiu daí. Entre a água fria e a água quente, é o partido água-morna. Essa escola, com sua falsa profundidade, toda superficial, que disseca os efeitos sem remontar às causas, censura, do alto de uma meia-ciência, as agitações da praça pública.

Qualquer motim fecha lojas, rebaixa o valor dos fundos, consterna a bolsa, suspende o comércio, entrava os negócios, precipita as falências; o dinheiro acaba, as fortunas privadas se inquietam, o crédito público vacila, a indústria se desconcerta, os capitais recuam, o trabalho é mal pago, há medo por toda parte; há contragolpes em todas as cidades. Daí surgem os abismos; vendo-se apenas o resultado financeiro, equivale a um desastre, naufrágio ou batalha perdida, que aniquilasse uma armada de sessenta naus de linha.

Sem dúvida, historicamente, as revoltas tiveram sua beleza; a guerra das ruas não é menos grandiosa, nem menos patética, que a guerra dos bosques; uma encerra a alma das florestas, a outra, o coração das cidades. As revoltas tingiram de vermelho, mas de forma esplêndida, todas as mais originais saliências do caráter parisiense, a generosidade, a dedicação, a alegria tumultuosa, os estudantes provando que a bravura faz parte da inteligência, a Guarda Nacional inabalável, as trincheiras dos comerciantes, as fortalezas de garotos, o desprezo pela morte dos que estão na rua. Escolas e legiões se chocavam. No final das contas, entre os combatentes havia apenas uma diferença de idade; todas da mesma raça; todos os mesmos homens estóicos que morrem aos vinte anos por suas idéias, e aos quarenta por suas famílias. O exército, sempre triste, nas guerras civis opunha a prudência à audácia. Os motins, ao mesmo tempo que manifestaram a intrepidez popular, forjaram a educação da coragem burguesa [sem falar de outro aparelho ideológico estatal denominado “mídia”].

Muito bem, mas tudo isso vale o sangue derramado? E, ao sangue derramado, acrescentem o futuro nebuloso, o progresso comprometido, a inquietude entre os melhores, o desespero dos liberais honestos, o absolutismo estrangeiro feliz com esses ferimentos feitos à revolução por ela mesma.

(…)

Quanto a nós, rejeitamos esta palavra, ampla em demasia e, por consequência, cômoda em demasia: motins. Fazemos distinção entre um movimento popular e outro movimento popular. Não nos perguntamos se um motim custa tanto quanto uma batalha. Seria a guerra menos flagelo do que são os motins calamidade? E quando o 14 de julho custaria cento e vinte milhões? O estabelecimento de Filipe V na Espanha custou à França dois bilhões [lembrai-vos do Brasil patrocinando o que resta do comunismo cubano às custas do escravismo dos médicos enviados ao Brasil].

(…)

Existe revolta e existe insurreição; são dois tipos de ira; uma é condenável, a outra é legítima. Nos Estados democráticos, os únicos fundados na justiça [será? – nem sei mais o que é realmente isso], acontece que algumas vezes, a fração usurpa, e então o todo se ergue, e a necessária reivindicação de seus direitos pode chegar a que se pegue em armas. Em todas as questões que são de competência da soberania coletiva, a guerra do todo contra a fração é insurreição; o ataque da fração contra o todo é revolta [pode-se lembrar o conceito de luta de classes em Marx, ou a hegemonia, em Gramsci]. O mesmo canhão apontado contra a multidão foi justo no 10 de agosto, e injusto no 14 vindimiário[1]. Aparências semelhantes, fundamentos diferentes; as guardas suíças defendem o falso, Bonaparte, o verdadeiro. O que o sufrágio universal fez no uso de sua liberdade e de sua soberania não pode ser desfeito nas ruas. Do mesmo modo no que tange às coisas de pura civilização; o instinto das massas, ontem clarividente, pode amanhã estar turvado. A destruição de máquinas, os saques de armazéns, a quebra de trilhos, a demolição de docas, os tortos caminhos seguidos pelas multidões, o povo negando justiça ao progresso, Ramus[2] assassinado pelos estudantes, Rousseau expulso da Suíça a pedradas, tudo isso é revolta. Israel contra Moisés, Atenas contra Fócion, Roma contra Cipião, é revolta; Paris contra a Bastilha, é insurreição. Os soldados contra Alexandre, os marinheiros contra Cristóvão Colombo, é a mesma revolta; revolta ímpia. Por quê? Porque Alexandre fez com sua espada pela Ásia o mesmo que Cristóvão Colombo fez pela América com sua bússola; Alexandre, assim como Colombo, descobriu um mundo. Esse doar de mundos à civilização significa tamanho aumento de luz que qualquer resistência é culpável. Às vezes o povo falta com fidelidade a si mesmo. A multidão é traidora do povo.

(…)

O impulso das paixões e das ignorâncias é diferente do impulso do progresso. Levantem-se, que seja, mas para crescer. Mostrem-me para que lado vão. Não há insurreição senão para adiante. Qualquer outro levante é mau. Qualquer passo violento para trás é revolta; recuar é uma violência contra o gênero humano. A insurreição é o acesso de fúria da verdade; as ruas que a insurreição põe em movimento lançam a centelha do direito, e não deixam para a revolta senão sua lama. Danton contra Luís XVI, é insurreição; Hébert contra Danton, é revolta.

Há também diferença na intensidade calórica; a insurreição com frequência é vulcão, e a revolta com frequência é fogo de palha.

A revolta, já dissemos, está algumas vezes no poder. Polignac é um fomentador de revoltas, Desmoulins é um governante.

Outras vezes, insurreição é ressurreição.

Sendo a solução de tudo pelo sufrágio universal um fato inteiramente moderno, e toda a história anterior a esse fato estando, há quatro mil anos, repleta do direito violado e do sofrimento do povo, cada época da história carrega com ela o protesto que lhe é possível.

No tempo dos césares não havia insurreição, mas havia Juvenal (Sátiras).

Nem falamos do imenso exilado de Patmos[3], que, também ele, oprime o mundo real com um protesto em nome do mundo ideal, faz da visão uma sátira enorme, e arremessa sobre Roma-Nínive, Roma-Babilônia, Roma-Sodoma, [estaria o autor ilustrando elementos decadentes da alma humana como: Força/Poder, Dinheiro e Sexo?] o fulgurante reflexo do Apocalipse.

Os déspotas têm responsabilidade sobre os pensadores. Palavra acorrentada é palavra terrível.

O escritor duplica e triplica seu estilo quando o silêncio é imposto ao povo por um tirano. Sai desse silêncio certa plenitude misteriosa que se filtra e se condensa em bronze no pensamento [compare com os movimentos como a tropicália nos tempos da ditadura no Brasil].

(…) A vilania dos escravos é um produto direto do déspota; um miasma é exalado dessas consciências corrompidas em que há reflexos do senhor; os poderes públicos são imundos; os corações são pequenos, as consciências achatadas, as almas desprezíveis. (…) Mas Juvenal e Tácito, do mesmo modo que Isaías nos tempos bíblicos, que Dante na Idade Média, é o homem; revolta e insurreição, é a multidão, que ora tem razão, ora está errada.

Na maior parte dos casos, a revolta provém de um fato material; a insurreição é sempre um fenômeno moral. A insurreição toca os limites do espírito, a revolta, os do estômago. (…) Alimentar o povo é um bom objetivo, massacrá-lo é um péssimo meio. Antes que o direito emane, há tumulto e ódio. No princípio, a insurreição é revolta, do mesmo modo que um rio é torrente. Geralmente, ela chega neste oceano: a revolução. Algumas vezes, porém, vinda destas elevadas montanhas que dominam o horizonte moral, a justiça, a sabedoria, a razão, o direito, feita da mais pura neve do ideal, após prolongada queda de rocha em rocha, após ter refletido o céu em sua transparência e ter-se engrossado com centenas de afluentes em sua majestosa marcha de triunfo, a insurreição se perde repentinamente em algum pântano burguês, como o Reno em um brejo.

(…)

De resto, insurreição ou revolta, naquilo que a primeira difere da segunda, o burguês propriamente dito conhece pouco essas nuances. Para ele tudo é sedição, rebelião pura e simples, revolta do cão contra seu dono, tentativa de mordida que merece ser punida com corrente e prisão, latido, uivo; até o dia em que a cabeça do cão, subitamente crescida, se esboça vagamente na sombra com aspecto de leão.

O burguês então grita: “Viva o povo!”

Qualquer semelhança com acontecimentos recentes é mera coincidência!!!


[1] 10 de agosto de 1792: tomada das Tulheiras, defendidas por guardas suíças, decidindo-se pela abolição da realiza; 14 vindimiário (4 de outubro de 1795): fracasso, sob a artilharia de Bonaparte, de um golpe de estado realista, em Paris. (N. do E.)

[2] Pierre de la Ramée ou Petrus Ramus (1515 – 26 de agosto de 1572), foi um lógico, humanista protestante e reformador educacional francês, membro de uma família nobre, mas empobrecida: seu pai era um fazendeiro e o pai de seu avô de um carvoeiro. Ramus foi morto no massacre de Saint-Barthélemy (Noite de São Bartolomeu).

[3] Referência à Revelação de Jesus Cristo ao apóstolo João (Livro do Apocalipse), quando aprisionado na Ilha de Patmos.

Eder Silva é iniciante nas ciências do povo, especialista em Sociologia Política (UFPR); bacharel em Turismo (UP). Este artigo reflete as opiniões do autor. O site não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações.

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